Pai

Fazia-se madrugada enquanto caminhava em direção a casa, concentrado nos meus passos de cabeça baixa, numa mistura de recordações e pensamentos constantes. Andei por vagos minutos, até parar sobre a paisagem do rio, sentando, observando o reflexo da minha imagem sobre a àgua que corria tão calmamente naquele instante. Levantei a cabeça lentamente e cruzei o meu olhar sobre a luz que percorria os lados do rio e a minha imagem. Foi nesse instante que eu lembrei-me do teu olhar sério, cheio de sentimentos mistos, porque quando eu vejo o reflexo da minha imagem eu vejo-te a ti no meu interior, vejo o quanto tu deixas-te de ti em mim, e eu que sempre neguei o meu sentimento de filho por ti, pai. O dia aproxima-se e a dor bate novamente à porta do coração e da saudade, o silêncio chega a casa e evitamos falar nesse dia, o olhar da mãe muda, eu vejo e sinto, a sua angústia e o carinho que por ti sempre vai ter. Eu pensei que seria um rapaz como todos os outros, crescer com um pai, falar contigo nos dias de tristeza e termos as nossas brincadeiras, mas na verdade nunca tivemos nada disso, porque eu sempre preferi o orgulho do que curar a ferida. Custa-me mais por saber que tive a oportunidade de pedir desculpa e mesmo assim eu desperdicei, porque nós todos cometemos erros e este é levado comigo para todo o lado. Eu quero que saibas a falta que aqui fazes, quero que saibas o quanto cresci e tornei-me num homem, gostava que estivesses presente quando entrei na faculdade e quando fiz os meus 18 anos, gostava que visses os teus filhos a crescer e que conhecesses a mulher da minha vida, gostava que simplesmente estivesses presente e que não tivesses ido embora, porque eu sei que apesar da nossa falta de comunicação, eu amava-te como um filho ama um pai. E quero dizer-te obrigada por naquele momento teres estado comigo lado a lado, porque eu senti-te mesmo ali com a brisa do vento, obrigada pai e lembra-te que eu amo-te como um filho ama um pai.
Sem comentários:
Enviar um comentário